Tatiana entrevista 1 VF Site FCC

Um lugar de integração e diálogo. Este será o perfil do Fórum de Ciência e Cultura, agora sob a coordenação da professora Tatiana Roque, que assumiu o cargo em julho.  Com uma carreira acadêmica marcada pela transdisciplinaridade, dando aulas no CT (Centro de Tecnologia), CCMN (Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza) e IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais), Tatiana quer imprimir ao Fórum esta marca interdisciplinar, acentuando ainda o diálogo da Universidade com a sociedade.  

“O país vive um momento muito difícil para as universidades públicas, de desmonte em termos de orçamento, de diminuição do caráter público da universidade, de desinvestimento do Estado. A gente precisa resistir a isso. E uma das melhores maneiras é mostrar para a sociedade o quanto a Universidade produz de essencial. Esse é um papel do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ: mostrar para a sociedade a relevância da universidade, dos nossos projetos, professores, estudantes, servidores”, explica Tatiana Roque, graduada em Matemática, mestre em Matemática Aplicada e doutora em História e Filosofia das Ciências - todos os títulos obtidos pela UFRJ, onde ingressou como professora em 1996. Em 2013, foi vencedora do Prêmio Jabuti, com o livro História da matemática: uma visão crítica, desfazendo mitos e lendas (Zahar). 

Nesta entrevista, a coordenadora aponta as diretrizes de atuação do Fórum, que é composto por oito órgãos: Museu Nacional, Editora UFRJ, Sistema de Bibliotecas e Informação da UFRJ (SiBI), Casa da Ciência, Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE), Universidade da Cidadania, Núcleo de Rádio e TV e Sistema de Museus, Acervos e Patrimônio (Simap).

Tatiana, que foi presidente da Associação dos Docentes da UFRJ (Adufrj) entre 2015 e 2017, defende a abertura da Universidade ao diálogo “para fora”, comemora a eleição da primeira reitora da Universidade, Denise Pires de Carvalho, às vésperas do centenário da UFRJ, e aponta para 2022, ano de celebração de dois marcos importantes: bicentenário da Independência do país e 100 anos da Semana de Arte de 1922, “que pensou o Brasil”.  

“A gente quer fazer um grande projeto para se pensar, a partir da UFRJ, o que são esses 200 anos da Independência, que se conecte com outra data muito simbólica que são os 100 anos da Semana de 22. Até lá, a gente espera conseguir ter uma reflexão sobre projetos para o futuro do país, a partir da universidade, que é um lugar privilegiado para se ter esse tipo de iniciativa”, resume. 

Assista à entrevista completa:

Há quantos anos você é professora da UFRJ? Como foi sua trajetória e qual é sua relação com a Universidade?   

A minha trajetória na Universidade vem de longa data. Eu sou aluna da UFRJ, fiz graduação, mestrado, doutorado, que teve uma parte sanduíche na França, mas o título é da UFRJ. Entrei como professora em 96. Fiz concurso em 95. Antes disso fui professora substituta. Entrei como professora assistente, depois adjunta, agora associada. Meu filho estuda no CAP da UFRJ, fui presidente do sindicato dos professores da UFRJ. Enfim, transito em vários centros: Instituto de Matemática, CT (Centro de Tecnologia), CCMN (Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza), IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais). Ou seja, tenho uma relação tanto espacial como temporalmente muito próxima da UFRJ. 

A UFRJ tem agora a primeira mulher a ocupar o cargo de Reitora, a professora Denise Pires de Carvalho. O que se pode esperar da nova gestão? 

É bastante simbólico nesse momento do país e da UFRJ, que vai fazer 100 anos, termos a primeira mulher eleita reitora. É bem significativo também que se tenha uma maioria de mulheres nas pró-reitorias. Em outros cargos da UFRJ a gente também quer essa representatividade. As mulheres na Universidade têm um papel enorme na pesquisa, estão nos cursos de graduação e pós-graduação com trajetórias prestigiosas, mas na hora de ocupar os postos de poder e destaque não são as mulheres que ocupam. Esse é um efeito conhecido, chamado “teto de vidro”, que a gente quer mudar na UFRJ. Eu, como coordenadora do FCC, não sou a primeira mulher a exercer esse cargo, mas quero que nossas políticas, medidas e unidades tenham essa preocupação de sempre garantir mais espaço para as mulheres. 

Quais são os maiores desafios para as Universidades Públicas neste momento em que vive o Brasil? 

O país vive um momento muito difícil para as universidades públicas, de desmonte em termos de orçamento, diminuição do caráter público da universidade, desinvestimento do Estado. A gente precisa resistir a isso e uma das melhores maneiras é mostrar o quanto a universidade produz de essencial para a sociedade como um todo. A gente vai precisar da sociedade do nosso lado.  E, no caso da UFRJ, esse é um papel do Fórum de Ciência e Cultura: mostrar para a população a relevância da universidade, do que é produzido aqui. É uma autocrítica que é preciso fazer: às vezes a gente não se preocupa em ter uma melhor comunicação com a sociedade e fica muito voltado para dentro. Isso é algo que essa gestão atual quer mudar e o Fórum vai ter um papel estratégico.  

Quais os principais objetivos da sua gestão?  

O papel institucional do FCC é reunir as diversas áreas da UFRJ, ter projetos inter ou transdisciplinares, com impacto externo. Isso é uma coisa que quero implementar: pensar projetos integradores e agregadores, de diversas pesquisas que são feitas na UFRJ, a partir de eixos temáticos que gerem impacto e maior visibilidade para a sociedade. Um exemplo disso é o curso interdisciplinar, que começa em agosto no Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE), voltado para o assunto das mudanças climáticas. Tem muitos pesquisadores da UFRJ que trabalham sobre esse assunto, em áreas diferentes, mas que não têm muita integração. A UFRJ parece um arquipélago. Pela sua própria origem, que incorporou escolas e institutos que eram separados, ela tem essa estrutura muito fragmentada. Um dos objetivos do Fórum vai ser integrar pesquisas em campos que tenham afinidade, mas que são realizadas hoje em áreas muito fragmentadas. Queremos fazer isso de modo que a pesquisa não tenha apenas interesse acadêmico, mas também seja voltada para os problemas que o nosso mundo enfrenta neste momento. A questão das mudanças climáticas é exemplar disso. 

Como tornar a universidade mais transdisciplinar? 

Esse é um grande desafio porque, na verdade, o nosso sistema de pesquisa não incentiva muito a transdisciplinaridade. Nossos critérios de avaliação de pesquisa, da Capes, do CNPQ, das pós-graduações, não são nada interdisciplinares. Em geral, quando a gente submete projetos às agências, a gente é avaliado segundo critérios de áreas disciplinares específicas. Existe muita dificuldade em ter projetos interdisciplinares, apesar de estarmos no século 21! Ainda é uma batalha que a gente tem que enfrentar no sistema de avaliação e fomento da pesquisa.  

Como será a atuação do FCC dentro da comunidade acadêmica? Quais são as estratégias para tornar o Fórum mais conhecido e relevante dentro e fora da Universidade?  

Ainda estamos fazendo a transição. A gente vai continuar as políticas que são importantes, mas o que a gente quer, fundamentalmente, em termos de transformação é dar uma nova cara ao Fórum, fazer com que a sociedade enxergue o que é feito aqui e também incentivar novos projetos, a partir da necessidade de gerar visibilidade e ter um impacto social maior. Para isso a gente precisa, muitas vezes, de melhor divulgação e, também, conceber projetos que tenham essa preocupação de atender a demanda da sociedade. O Fórum vai ser esse espaço de acolhimento de projetos interdisciplinares, que não têm muito lugar para ser realizados em outros espaços da universidade. E vai atender também esse desejo, que hoje é muito manifesto e intenso na comunidade universitária, de falar mais com a sociedade. Nós estamos um pouco assustados pelos ataques que a universidade tem sofrido e isso tem motivado um desejo, também positivo, que é de falar mais com a sociedade, desenvolver projetos que tenham mais impacto, que dialoguem mais e mostrem para a sociedade a nossa relevância, que o que fazemos aqui são pesquisas, trabalhos de grande importância para o mundo, a cidade, o Brasil. O Fórum não quer reproduzir o que já é feito nas diferentes unidades da Universidade, mas sim ser esse espaço que a gente não tem hoje, de integração e de diálogo. 

Como espera que a Universidade e o Fórum estejam daqui a quatro anos?  

A gente tem dois marcos importantes apontando para o futuro. Ano que vem comemoramos os 100 anos da UFRJ e o Fórum vai coordenar esse projeto. Esperamos que tenham muitas atividades que deem justamente essa imagem do impacto, da importância da UFRJ para a sociedade. E em 2022, justamente quando termina nossa gestão, são os 200 anos da Independência. A gente espera ter um grande projeto de se pensar o país, a partir da UFRJ. O que são esses 200 anos da independência? E essa data está conectada com outra muito simbólica, que são os 100 anos da Semana de Arte de 1922, que pensou o Brasil. Até lá,  a gente espera ter uma reflexão sobre projetos para o futuro, a partir da Universidade, que é um lugar privilegiado para se ter esse tipo de iniciativa. Além disso, esperamos iniciar a reforma do prédio em que está o Fórum de Ciência e Cultura, que foi construído para os 100 anos da Independência (inaugurado em 1922, como Hotel Sete de Setembro, o prédio em que funciona o Colégio Brasileiro de Altos Estudos, na Avenida Rui Barbosa, Flamengo, foi tombado pelo INEPAC em 1987).

[Por Dentro do FCC] é uma série semanal de entrevistas que apresenta o Fórum e seus órgãos suplementares à comunidade universitária e à sociedade. Nelas, os participantes discutem os projetos e as expectativas de cada órgão para os próximo quatro anos de gestão. A próxima entrevistada da série "Por Dentro do FCC" será a prof. Adriana Schneider, que irá assumir a Superintendência de Difusão Científica e Cultural do Fórum a partir do mês de novembro. Não perca!

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