1544459236276559

Solidificação do debate, implementação da legislação, garantia do direito de contato e de produção, da liberdade de expressão e da fruição estético artístico cultural das pessoas com deficiência (PCDs): desde 2013, estas vêm sendo as diretrizes do Encontro Nacional de Acessibilidade Cultural, o Enac, que no mês passado realizou sua 6º Edição, no Fórum de Ciência e Cultura (FCC) da UFRJ.

Durante 5 e 9 de novembro, o evento reuniu mais de 150 participantes, entre pesquisadores, estudantes, artistas e gestores culturais de todo o país e, pela primeira vez, de outros países, com a participação de pesquisadores do Instituto Politécnico de Leiria (IPLeiria).  

Criado dentro do curso de terapia ocupacional da UFRJ há 6 anos, o Enac integra academia e setores sociais em torno da luta pela garantia do acesso de pessoas com deficiência à cultura enquanto direito universal. “Temos confiança no compromisso universitário que nos propomos a construir ao longo desses anos e nesse projeto de formação hibridizada com o movimento social. Sem este, a demanda não nos chegaria, sem esse não respiramos democracia, acessibilidade e direito cultural”, disse a coordenadora do Enac e do Curso de Especialização em Acessibilidade Cultural da UFRJ, Patricia Dorneles, na mesa de abertura do evento.

Além de Dorneles, que é também Superintendente de Difusão Cultural do FCC, participaram da mesa representantes das principais instituições parceiras do evento, como as Universidades Federais do Rio Grande do Sul (UFRGS), do Rio Grande do Norte (UFRN) e de Pelotas (UFPel), a Direção do FCC, a Diretoria de Acessibilidade da UFRJ (DIRAC), o Ministério da Cultura (MinC), além da Escola de Gente e da Mais Diferenças. 

Mudança de mentalidade

Num momento de dificuldades e incertezas políticas no país, os participantes elogiaram os esforços pela realização do Enac. Para eles, além de impedir retrocessos nas políticas de acessibilidade cultural, o grande desafio é contribuir com a mudança de mentalidade sobre a temática, ainda entendida no Brasil como inovação.

Nesse sentido, além de discutir acessibilidade cultural, o próprio evento se constitui como espaço acessível, oferecendo as mais variadas linguagens e formatos, na tentativa de atender ao maior número de linguagens e públicos, de pessoas com e sem deficiência. Durante as atividades foram oferecidos recursos como Libras, audiodescrição, banheiros acessíveis, entre outros.  

“O desafio da acessibilidade é um desafio cultural. Fazer com que as pessoas entendam que independente de suas condições específicas, elas têm direitos absolutamente igualitários”, defendeu a professora Mônica Pereira dos Santos, professora da Faculdade de Educação da UFRJ e diretora geral da Diretoria de Acessibilidade (DIRAC-UFRJ) - órgão responsável por elaborar e implementar a política de acessibilidade da universidade, criado no início de 2018.

“A gente conseguir articular universidade pública, sociedade civil de vários de vários países - hoje a gente tem pessoas de Portugal trazendo a sua experiência - é fundamental para que tenhamos a clareza de que o direito à cultura é para todos, é um bem público e é um bem comum”, observa Carla Mauch, coordenadora-geral da Mais Diferenças, OSCIP de São Paulo, que atua na promoção de educação e cultura inclusiva e apoia o Enac desde a sua primeira edição.

Para Carlos Vainer, diretor do FCC, a acessibilidade cultural deve ser compreendida como via de mão dupla. Segundo ele, vivemos numa sociedade onde a diferença se torna um elemento para a construção social da desigualdade. Portanto, o desafio é “transformar as diferenças em elemento de reconhecimento mútuo e não em instrumento de construção de hierarquias e desigualdades”. Só assim, diz Vainer, é possível impedir que as diferenças se transformem em desigualdades. “É disso que fala, ao meu ver, a ideia de acessibilidade. Acessar o outro, cada um com sua limitação e poder aprender com o mundo do outro”, explica.

Acessibilidade para quem consome e para quem produz cultura

Tão importante quanto o direito de acessar e de consumir cultura, é o direito de poder produzi-la. Essa é luta de Rogério Andreolli, ator, bailarino e, atualmente, Conselheiro Municipal de Cultura do Rio de Janeiro. Andreolli é cadeirante e chama atenção para as dificuldades de fazer arte sendo deficiente. Reconhecendo melhorias nos últimos anos, Rogério garante que ainda há muito a avançar.

Entre elas, a relevância de se pensar o acesso e a inclusão das PCDs nos processos de produção artístico-cultural em suas diferentes funções e linguagens. “Os espaços também precisam ser pensados não só com acessibilidade para o espectador e sim com acessibilidade também para o artista, para quem produz arte”, diz Andreolli.  

A atuação de pessoas com deficiência na produção cultural e artística tem desdobramento direto para quem consome os produtos e acessa os espaços. “Dentro das curadorias, dentro das comissões de avaliação, tem que haver pessoas com deficiência participando para que elas possam apontar onde estão os erros de um possível projeto que contemple algum tipo de acessibilidade”, afirma.


Oficinas e rodas de conversa

O VI Enac contou com palestras, oficinas, minicursos e rodas de conversa. Entre as atividades acadêmicas, foram apresentados 35 trabalhos produzidos por estudantes, professores e profissionais das áreas de acessibilidade e cultura de todo o país. Na programação cultural, foram realizados uma mostra de cinema acessível, em parceria com o Cinema Nosso, além de uma apresentação da peça teatral do espetáculo teatral A Busca de Seo Peto e Seo Antônio, do Grupo Moitará - encenado por atores surdos.

1544466989524834

Entrevistas: Aline Rocha

Texto: Victor Terra  

Fotos: Bira Soares

UFRJ Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ
Desenvolvido por: TIC/UFRJ