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Lara Martins, do Sistema B Brasil, relacionou meio ambiente e direitos humanos | Foto: Eneraldo Carneiro/Fórum de Ciência e Cultura - UFRJ

 

No primeiro dia, foram apresentados os conceitos básicos sobre o tema e discutida a importância do debate sobre o clima

 

Neste sábado (2), o Fórum de Ciência e Cultura realizou o primeiro encontro do curso “A Chapa Esquentou, Cria! — Reação aos Impactos da Emergência Climática nos Territórios”. Durante o dia, os alunos discutiram a importância de se debater sobre o clima e tiveram contato com os conceitos básicos do estudo sobre as mudanças climáticas.

Tatiana Roque, coordenadora do Fórum, foi quem abriu as atividades. Durante sua palestra, a coordenadora trouxe a história dos estudos sobre as mudanças climáticas. Ela explicou que as descobertas sobre o tema são relativamente recentes em termos históricos. As pesquisas ganharam robustez e foram sistematizadas a partir da década de 1980. “Os cientistas começaram a modelar o clima, em vez de tentar descrevê-lo somente com fórmulas. Isso só foi possível com o avanço tecnológico, como a coleta de dados a partir de informações geradas por satélites artificiais”, disse.

 

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Tatiana Roque, coordenadora do Fórum, fez a abertura do curso e fez um breve histórico sobre como foram realizadas as descobertas sobre as mudanças climáticas | Foto: Eneraldo Carneiro/Fórum de Ciência e Cultura - UFRJ

 

A coordenadora também falou sobre o negacionismo climático. Explicou que ele começa a ser observado a partir dos anos 1990, quando o movimento ecológico ganha força no mundo e a indústria de combustível fóssil começa a se ver ameaçada. “Essas empresas sabiam que não podiam ir contra um consenso científico. Então, desenvolveram um modo de atuação muito parecido com o que observamos hoje na pandemia: eles passaram a disseminar a dúvida a fim de tentar dizer que tratava-se de uma polêmica e não de um consenso científico”, disse. 

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Fábio Scarano disse que os 17 Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável é a “utopia” que deve ser mirada para termos um futuro melhor | Foto: Eneraldo Carneiro/Fórum de Ciência e Cultura - UFRJ

 

Em sua explanação, Fábio Scarano, professor de Ecologia e Desenvolvimento Sustentável do Laboratório de Limnologia da UFRJ, destacou o trabalho realizado pelo IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), instituto do qual faz parte e que produz pesquisas sobre as mudanças climáticas, e os 17 Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável, firmados em 2012 durante a Rio+20. Scarano disse que pensar na causa do meio ambiente é pensar no futuro: “temos que retirar as amarras que temos com o presente. É difícil imaginar um futuro diferente do que vivemos na atualidade, mas temos que fazer esse exercício”, diz. 

Segundo Scarano, o seu objetivo foi propor a reflexão sobre como a sociedade — por meio do discurso e da prática científica, política e individual — lida e debate as mudanças climáticas.“Para que um futuro livre dos riscos da mudança climática emerja, é necessário rever várias das nossas premissas do presente”, diz. “Por exemplo, é o caso de pensarmos em 'mitigação' e ‘adaptação’ ou seria mais apropriado tratarmos ‘transformação’? Nossa preocupação deve ser de ‘resiliência’ ou de ‘resistência’?”, questiona.

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Diego Malagueta explicou que não basta pensar em novas tecnologias. Segundo o professor, a solução é complexa e passa pela reflexão sobre a escala da produção | Foto: Eneraldo Carneiro/Fórum de Ciência e Cultura - UFRJ

 

Já Diego Malagueta, professor de Engenharia Mecânica e Planejamento Energético do Instituto Politécnico de Macaé, focou na questão energética em sua aula.  Ele ressaltou que toda tecnologia tem potencial para provocar mudanças no clima e que o debate não deve ser contido apenas na busca por alternativas “limpas”. “Toda tecnologia necessitará de insumos e produzirá resíduo”, afirma. 

Para o professor, é necessário observar a escala da produção energética. “Se a energia eólica ou solar, que hoje representam cerca de 10% da fonte de energia no mundo, tomarem a proporção que a energia gerada a partir de óleo ou carvão, qual será o impacto?”, questionou. “Não estou dizendo que não devemos fazer a transição de tecnologia. Mas devemos fazer isso com mais aprendizado e observação.”

Para Malagueta, a solução só aparecerá depois da conscientização da população. “Se as pessoas compreendessem a magnitude do problema para cada campo de atuação, seja profissional, seja como cidadão, elas poderiam entender que é um problema que afeta toda a sociedade e que todo cidadão deve colaborar com a solução”, diz. “O ponto de partida é a conscientização. Porque sem isso, a gente nem começa a trabalhar. Parece que a gente vem falhando nisso. Ainda vivemos em uma sociedade que passa por uma crise de negacionismo frente aos desafios ambientais que nós temos pela frente”.

Meio ambiente e direitos humanos

 

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Wesley Teixeira destacou os saberes acumulados pela população e ressaltou a importância de dar espaço para novas visões sobre a relação entre sociedade e meio ambiente | Foto: Eneraldo Carneiro/Fórum de Ciência e Cultura - UFRJ

 

Fechando o dia, Lara Martins, gerente de Causas Coletivas do Sistema B Brasil, e Wesley Teixeira, integrante do Perifa Connection, falaram sobre racismo ambiental. Eles destacaram que falar de meio ambiente é também discutir direitos humanos e, principalmente, trazer novos olhares sobre a questão climática. “Os europeus, ao colonizar o mundo, se consideravam superiores aos outros povos e promoveram o apagamento das culturas. Por exemplo, o candomblé, que tem origem africana, tem a natureza dentro do que considera sagrado. Diferente da visão europeia, cristã. É uma outra forma de lidar com a natureza”, disse Teixeira. 

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Lara Martins provocou a discussão sobre o impacto das mudanças climáticas nas populações mais vulneráveis: “não estamos no mesmo barco” | Foto: Eneraldo Carneiro/Fórum de Ciência e Cultura - UFRJ

 

Lara, por sua vez, provocou discussão sobre o discurso de que, no que tange o debate climático, “todos estão no mesmo barco”. Ela destacou que as populações mais pobres são as mais afetadas pelos impactos ambientais. “Dentro do estudo de mudanças climáticas temos que olhar também para os impactos sociais”, afirmou. Segundo Lara, o seu objetivo foi fazer a conexão entre as questões climáticas e como a população é afetada por elas. “Nós não costumamos nos colocar no meio ambiente. Desconectamos o ser humano da natureza, mas fazemos parte desse sistema e temos uma relação de interdependência”, afirmou. “A minha ideia é trazer os alunos para essa realidade, conectando clima e direitos humanos, falando de Justiça climática”.

Lorena Fróes, universitária e mobilizadora da turma da Maré, acompanhou o curso durante o sábado e destacou que chamou sua atenção as explicações sobre a responsabilidade pelas mudanças climáticas e como ela afeta as populações periféricas. “Gostei muito de uma fala hoje sobre como a população mais pobre é a mais afetada pelas mudanças climáticas, mas não necessariamente é a que polui. Isso me tocou muito porque eu nunca tinha visto alguém explicar isso de forma tão clara”, disse. 

O curso ainda terá três encontros presenciais, que serão realizados nos territórios, além do dia de encerramento — que também será promovido na sede do Fórum de Ciência e Cultura. As aulas serão oferecidas até o dia 11 de junho  e serão ministradas em Acari, Duque de Caxias, Niterói, Complexo da Maré e Rio das Pedras, além da própria UFRJ.

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