Colagem sem titulo
Da esq. para dir: Suzana Kahn, Eduardo Viveiros de Castro e André Trigueiro

Atualmente, 20% da Floresta Amazônica já foram desmatados, aumentando a participação do Brasil no problema do aquecimento global. Até o fim do século, a temperatura média do planeta vai aumentar pelo menos 2°C. Marcantes do panorama atual e previstos em perspectivas de agravamento no futuro próximo, acontecimentos como esses comprovam a importância de debater as mudanças climáticas e propor ações para o problema.

Com essa intenção, na última segunda-feira, dia 12 de agosto, especialistas da área ambiental se juntaram a estudantes e demais interessados no tema para a aula inaugural do Ciclo de Debates “Desastres e Mudanças Climáticas: Construindo uma agenda”, que vai até novembro. O projeto é uma iniciativa do Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE), órgão vinculado ao Fórum de Ciência e Cultura (FCC). A aula inaugural foi realizada no auditório Pedro Calmon, no campus da Praia Vermelha e reuniu cerca de 250 pessoas.

“Em tempos de negacionismo, de ataques à ciência e à universidade, é fundamental que a UFRJ tenha uma agenda para o tema da emergência climática”, alertou Tatiana Roque, coordenadora do FCC. Com formato interdisciplinar, o curso tem como objetivos integrar as pesquisas sobre a temática realizadas na universidade e propor uma agenda consistente para enfrentar as questões.

Mais do que nunca, o envolvimento do Brasil com a pauta é estratégico, segundo Suzana Kahn, vice-diretora da COPPE e membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU. “Pode ser uma grande oportunidade para o Brasil de se tornar uma liderança mundial numa economia de baixo carbono”, explicou a pesquisadora, lembrando que, atualmente, reduzir a emissão de CO2 é uma obrigação de todos os países.

Para a pesquisadora, o Brasil apresenta um grande potencial a desenvolver, já que possui uma variedade incomum em termos de matrizes energéticas disponíveis. Ao mesmo tempo, o país está entre os que mais podem sofrer as consequências das mudanças climáticas, como a elevação no nível dos oceanos e o aumento de temperatura, por exemplo. A partir de dados do IPCC e da UNFCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima), Kahn mostrou ao público que as estratégias adotadas pelo governo federal vão na contramão do que as pesquisas indicam e, por isso, precisam mudar imediatamente. “O que está faltando é investimento em ciência e tecnologia. Recursos naturais nós temos”.

Em quase 50 anos, 20% do território da Floresta Amazônica foram desmatados. Estudos mais recentes apontam que se os 25% forem alcançados, a floresta atingirá um limite irreversível de suas condições de existência, ocasionando o colapso dos ciclos hidrológicos e dos ecossistemas locais, com rebatimentos climáticos em todo o planeta. Os dados, que foram apresentados pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, demonstram a gravidade do problema e evidenciam o que o pesquisador do Museu Nacional define como “estado de emergência climática”, situação na qual “a vida está em perigo iminente, sendo preciso tomar providência imediata”, como ele explica. 

Segundo Viveiros de Castro, os estudos mostram de modo suficiente que medidas devem ser tomadas para retardar o aquecimento do planeta e impedir o agravamento do quadro. O desafio está em definir como realizá-las na prática, não apenas em termos técnicos, mas principalmente éticos.

Além das ações indicadas por Kahn, como a contenção do desmatamento, o pesquisador sustentou a prioridade de uma mudança radical de visão, em que questões políticas e ambientais não sejam discutidas separadamente, pois estão essencialmente ligadas. “Não existe capitalismo sustentável. Ele é, por si só, ecocida”, afirmou. Nesse sentido, Viveiros de Castro enxerga a necessidade de deixar de considerar o mercado como elemento inerente à condição humana, como espécie de segunda natureza. “Há vida fora do capitalismo”, lembrou o antropólogo que revolucionou a etnologia ameríndia em trabalhos desenvolvidos com sociedades tradicionais no Brasil.

Para o jornalista, professor e ambientalista André Trigueiro, ainda que possam ser rediscutidas, “as rotas de enfrentamento do problema já foram estabelecidas” em iniciativas como os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), os oito  Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e o Acordo de Paris, ou ainda a Carta Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco.

Segundo Trigueiro, é preciso também ser mais estratégico na comunicação do problema à sociedade. “A gente precisa ser mais específico no uso dos termos. O que houve em Mariana não foi uma tragédia: não existe a tragédia de Mariana, existe o crime da Vale em Mariana”, explicou. Para o jornalista, para se aproximar da sociedade, a academia precisa descobrir “onde não está conseguindo se comunicar bem” e o que é preciso fazer para mudar isso. Nesse sentido, mencionou a relevância do curso e o protagonismo da UFRJ na elaboração de “propostas viáveis e mobilizadoras, capazes de alcançar diferentes segmentos da sociedade”.

Segundo a reitora da UFRJ, Denise Pires de Carvalho, esta será a tônica da universidade daqui para frente, buscando, cada vez mais, se aproximar e dialogar com a sociedade. “O negacionismo precisa ser combatido e a academia tem que fazer isso. Não vamos mais nos encastelar e fugir dessa luta”, assegurou a reitora.

1308 2019 110787684847715784255Evento lotou o Salão Pedro Calmon. Cerca de 250 presentes. 

Confira como foi a aula inaugural e acesse a programação completa do curso. 


Reportagem: Victor Terra 
Fotografia: Eneraldo Carneiro

Siga o FCC nas Redes Sociais: 
Facebook: @ForumdeCienciaeCultura
Instagram: @forum.ufrj

UFRJ Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ
Desenvolvido por: TIC/UFRJ