alyne costa
Foto: Ana Maria Rodrigues

A filósofa Alyne Costa, que realiza sua pesquisa de pós-doutorado no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, foi uma das premiadas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) com o Prêmio Capes de Tese - Edição 2020. O trabalho, intitulado Cosmopolíticas da Terra: modos de existência e resistência no Antropoceno, fruto de sua pesquisa de Doutorado, orientada pela prof. Deborah Danowski, recebeu o prêmio de melhor tese na área Filosofia.

Nessa entrevista, a pesquisadora apresenta reflexões sobre mudanças climáticas, negacionismo climático e seu enfrentamento no Brasil e discute ainda o papel da ciência no cenário contemporâneo: "Se não for capaz de assumir seu papel político na construção de um mundo mais plural e justo, a ciência não vai ser capaz de criar uma maior mobilização social em torno do aquecimento global, nem de se proteger dos negacionismos e conspiracionismos", afirmou.

Leia a seguir a entrevista completa: 

Em sua pesquisa de Doutorado, você trata da crise ecológica que fez com que planeta adentrasse em uma nova época geológica, o Antropoceno. Poderia contar em linhas gerais em que consistiu a pesquisa?

Minha pesquisa nasceu de uma dupla preocupação a respeito do colapso ecológico global e das possibilidades de enfrentá-lo: como podemos levar a sério o que a ciência nos diz sobre o problema sem revesti-la de uma autoridade que desqualifique outros modos de produzir conhecimento, como, por exemplo, o de povos indígenas e tradicionais? Como reconhecer que a ameaça é "global" e, ao mesmo tempo, admitir como legítimos os modos próprios como esses povos concebem a terra, seus seres e também como esses povos explicam a degradação que está acontecendo?

Assim, a tese foi uma tentativa de pensar o colapso ecológico experimentando entrelaçamentos entre discursos científicos, cosmologias indígenas e movimentos ecológicos, para imaginar possibilidades mais justas e plurais para a vida no Antropoceno. Não acho que encontrei uma resposta para a questão, mas propus caminhos para fazer as perguntas.

 

Em 2019, você foi uma das organizadoras e docentes do ciclo de palestras Desastres e mudanças climáticas: construindo uma agenda. O ciclo, de caráter eminentemente interdisciplinar, foi oferecido pelo Fórum e pelo Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE) a estudantes de pós-graduação de todas as áreas do conhecimento. Qual a importância da temática das mudanças climáticas no cenário sociopolítico contemporâneo?

AC: As mudanças climáticas não são uma preocupação futura: elas já estão acontecendo. Eventos climáticos extremos (secas, enchentes, tornados, ondas de calor, mega-incêndios...) têm se tornado mais frequentes e intensos. Os 20 anos mais quentes desde 1850, quando as medições começaram, ocorreram todos nos últimos 22 anos (e 2020 pode alcançar o posto de ano mais quente já registrado). A taxa de aumento da concentração de CO2 na atmosfera não tem paralelos nos últimos 65 milhões de anos.

Se não reduzirmos drasticamente as emissões de gases de efeito estufa até o ano de 2030 – o que teria de começar a acontecer ainda este ano, segundo as projeções do IPCC –, um mundo no mínimo 3ºC mais quente nos aguarda no fim deste século, com perspectiva de temperaturas ainda maiores nos anos seguintes. Os efeitos em cascada nos diversos ecossistemas provocarão migrações forçadas, conflitos, privações de direitos fundamentais, declínio de populações animais e vegetais, extinções... Imagine, por exemplo, a Amazônia transformada em cerrado, o semiárido se tornando um deserto, as cidades litorâneas inundadas pelo aumento do nível do mar. Por isso, é de suma importância entender a seriedade do problema e adotar o quanto antes medidas para amenizar seus efeitos.

 

Atualmente você desenvolve sua pesquisa de Pós-doutorado no Fórum de Ciência e Cultura, sob orientação da professora Tatiana Roque, coordenadora do Fórum e docente do Instituto de Matemática (IM/UFRJ). Quais temas você tem trabalhado e como eles se relacionam com a pesquisa desenvolvida ao longo do doutorado?

AC: No doutorado, minha pesquisa se concentrou sobretudo nos modos de vida de povos indígenas e tradicionais e nas experiências políticas de resistência ecológica, como forma de pensar o Antropoceno sob uma perspectiva mais plural. Já na atual pesquisa, venho tentado propor um paradigma de divulgação científica capaz de produzir um maior engajamento social em torno das mudanças climáticas, mas também um maior compromisso da ciência com a sociedade, no sentido de que ela se responsabilize pela forma como o conhecimento científico é utilizado.

De certa forma, o cerne da investigação permanece o mesmo, ainda que com foco diferente: reconhecer a gravidade das mudanças climáticas, mas recusando a pretensão universalista e neutra da ciência. Se não for capaz de assumir seu papel político na construção de um mundo mais plural e justo, a ciência não vai ser capaz de criar uma maior mobilização social em torno do aquecimento global, nem de se proteger dos negacionismos e conspiracionismos que proliferam atualmente.

 

A crise ecológica vem sendo alvo de uma onda negacionista e o Brasil passa por enormes retrocessos na legislação ambiental. Como você analisa esse cenário e qual o papel da ciência diante do negacionismo climático?

AC: Os acontecimentos atuais mostram que aqueles que chamamos de negacionistas talvez sejam os que mais entenderam a gravidade do colapso climático, já que estão desesperados para explorar tudo o que conseguirem enquanto ainda há meios. Para isso, eles criam uma cortina de fumaça negando o aquecimento global (e me dou conta de que, quando pensamos nos incêndios da Amazônia e do Pantanal, a expressão “cortina de fumaça” adquire contornos bem materiais).

Assim, enquanto os cientistas ainda perdem tempo “debatendo com o outro lado”, apostando que isso fará a sociedade finalmente entender que o problema é real e exigir medidas políticas, os negacionistas vão “passando a boiada” e extraindo lucros da destruição ambiental para garantir seus privilégios, ainda que apenas por mais alguns anos. Quanto a nós, que aprendamos a nos virar nas ruínas que eles deixarão para trás.

Por isso, como disse antes, penso que a ciência só conseguirá fazer frente ao negacionismo climático se perceber que não basta denunciar a mentira: é preciso fazer da “verdade inconveniente” uma causa pela qual as pessoas acreditem que vale a pena lutar.

 

Qual é sua avaliação a respeito da diminuição dos investimentos na ciência brasileira, em especial nas áreas de ciências humanas e sociais? Quais podem ser os impactos dessa redução de recursos direcionados à pesquisa científica no Brasil?

AC: Os cortes nos investimentos direcionados à ciência são muitíssimo preocupantes, sobretudo porque acontecem justo quando a gravidade do colapso ecológico exige um grande esforço coletivo e o melhor conhecimento disponível para evitarmos o pior. No caso específico das ciências humanas e sociais, a perseguição atual demonstra não só uma concepção restrita e instrumentalizada da ciência e de seus benefícios, como também a intenção de interditar pensamentos e discursos questionadores do projeto vigente de país.

Investir em ciência e educação é crucial para a compreensão das transformações pelas quais o mundo vem passando e para a construção de formas mais justas e plurais de habitá-lo. Nesse sentido, me alegra muito que uma tese que aproxima conhecimentos ocidentais e não ocidentais para pensar as mudanças climáticas tenha merecido o Prêmio Capes de Tese deste ano. Não que isso signifique que os ventos passaram a soprar a nosso favor, mas talvez nos dê algum ânimo para seguir em frente.

 

 

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