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Os professores Tatiana Roque (à esquerda), Fábio Scarano (centro) e Ana Toni (à direita) durante a apresentação da pesquisa “Mudanças Climáticas e Desenvolvimento Econômico: Percepções da População da Região Metropolitana do Rio”. | Foto: Bira Soares/Fórum de Ciência e Cultura

 

Entrevistados reconhecem a emergência ambiental e demonstram preocupação. No entanto, a maioria se sente impotente frente ao problema

A responsabilidade pelas mudanças climáticas é mais do indivíduo do que de instituições públicas e empresas. Essa é a percepção com o maior número de menções feitas pelas pessoas entrevistadas pela pesquisa “Mudanças Climáticas e Desenvolvimento Econômico: Percepções da População da Região Metropolitana do Rio”, realizada pelo laboratório Conexão do Clima. Depois dos consumidores, as indústrias são mais citadas como causadoras das alterações no clima. O agronegócio foi apontado pouquíssimas vezes.

A percepção majoritária sobre as causas das mudanças climáticas está relacionada ao consumo e a hábitos individuais. “O pior é o homem: induz consumo, ninguém se preocupa, quer comprar um carro melhor, quer conforto, não se preocupa em como se produz as coisas, vai comprando...”, disse um homem com idade entre 35 e 50 anos ouvido pela pesquisa. 

Para uma entrevistada pelo estudo, o problema é a educação.  “Falta consciência...a gente compra compulsivamente. Eu adoro comprar em bazar, brechó, não uso copo descartável. E se eu não consumo o produto, a fábrica não precisa produzir”, afirmou a mulher com idade entre 35 anos e 50 anos.

 

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Tatiana Roque, coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, diz que a pesquisa identificou que o tema é complexo para as pessoas. "Notamos que elas estavam um pouco tímidas na hora de se posicionar, o tema intimida", disse. | Foto: Bira Soares/Fórum de Ciência e Cultura

Uma parte significativa do grupo de entrevistados afirmou que adota medidas para reduzir os impactos do consumo no meio ambiente. Foram citadas, majoritariamente, iniciativas relacionadas ao descarte de lixo e à prática do consumo consciente. 

No entanto, foi identificado que a maioria das pessoas ouvidas demonstraram desconhecimento sobre como pressionar as instituições públicas e privadas para que ajam frente à crise climática. “Eles não veem nem por onde começar. Há um descompasso da percepção da gravidade do tema e o que eles podem fazer sobre isso”, disse Tatiana Roque, coordenadora do Fórum, durante a apresentação da pesquisa na última terça (24).

 

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Para Ana Toni, a emergência climática ganhou espaço na sociedade. "Antigamente era quase como um 'luxo' falar em meio ambiente, hoje em dia já entrou para a discussão social", disse. Foto: Bira Soares/Fórum de Ciência e Cultura

Clima preocupa, mas não mobiliza

Ana Toni, diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade, analisou que o tema das mudanças climáticas “preocupa, mas não mobiliza”. Segundo ela, a estratégia de comunicação dos movimentos ambientalistas é falha, porque não consegue apresentar à população maneiras de agir ou de a convidar para a ação. “Temos que estar atentos às diferentes audiências, descobrir como nos comunicar com cada uma”, disse. 

A diretora executiva do Instituto Sociedade e Clima acrescentou que seria importante para a causa ambiental que os temas do cotidiano fossem aproveitados para aproximá-la das pessoas. “Há um potencial grande de comunicar que a gente não aproveita. Diversos problemas se relacionam às mudanças climáticas como os aumentos dos preços da energia e dos alimentos, por exemplo”.

Já Fábio Scarano, professor de Ecologia do Instituto de Biologia da UFRJ, avaliou que o fato de não ter acontecido algum fato ambiental semelhante no passado atrapalha a compreensão das pessoas no presente. “Essa fase é estranha, porque não conseguimos enxergar o que vem depois”, explica. “A maneira como a emergência climática está posta dá a sensação de derrota, que a gente já perdeu”. 

 

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Para o professor Fabio Scarano, a mobilização social é fraca porque houve uma perda de sensibilidade sobre os desdobramentos futuros das questões discutidas no presente. "O ser humano urbano perdeu a noção de antecipação, parece que o evento tem que estar sobre nossas cabeças para agirmos". | Foto: Bira Soares/Fórum de Ciência e Cultura

Enchentes preocupam

De acordo com a pesquisa, os desastres naturais como enchentes e deslizamento de terra foram os mais lembrados pelas pessoas entrevistadas como fenômenos causados pelas mudanças climáticas. Casos como os ocorridos em Petrópolis, Minas Gerais e Bahia foram muito citados. "Ao mesmo tempo em que há a percepção de que a chuva forte e as enchentes são problemas antigos, desde a época de Dom Pedro, a maioria identifica que esses fenômenos estão mais recorrentes", destacou Tatiana Roque. 

As falas das pessoas ouvidas pela pesquisa confluem na avaliação de que a população mais pobre é quem mais sofre com os desastres naturais, uma vez que costumam viver em locais com menos infraestrutura e contam com menos recursos para enfrentar os desafios impostos pelas tragédias. "No que toca as enchentes é que notamos uma brecha para promover um maior engajamento político para que haja cobrança do poder público por soluções", explicou Tatiana Roque.  

Fomento à iniciativas em prol do clima

A pesquisa foi desenvolvida pelo laboratório Conexões do Clima, do Fórum de Ciência e Cultura. O seu público-alvo foram pessoas das classes B e C, moradoras da região metropolitana do Rio de Janeiro, que não se autodeclaram petistas ou bolsonaristas e que não integram movimentos sociais ou partidos. O objetivo é que a pesquisa seja usada para auxiliar no desenvolvimento de iniciativas em prol da emergência climática.

Leia a pesquisa completa.

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