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Pesquisadores debateram planejamento urbano e como ele contribui para os impactos dos fenômenos climáticos

Na terça-feira (7), o Fórum de Ciência e Cultura promoveu uma mesa redonda on-line sobre a vulnerabilidade da população que vive na região da Baía de Guanabara frente às mudanças climáticas. A mediação do debate foi realizada por Fábio Scarano, professor de Ecologia do Instituto de Biologia da UFRJ, e contou com a participação de Lincoln Alves, pesquisador do Inpe, Adriano Vasconcelos, do LAMCE UFRJ, e Ricardo de Moura, doutor do IPPUR/UFRJ.

Lincoln Alves, que colaborou com o mais recente relatório do IPCC, destacou a importância da coleta de dados sobre a região. Segundo ele, as informações sobre as alterações no clima e no sistema sócio-ecológico da Baía de Guanabara ainda são escassos — o que dificulta a elaboração de projeções e de planos para a mitigação ou contenção dos efeitos das alterações climáticas. "As informações são muito pontuais e dispersas. Existe uma carência muito grande de informação”, disse. “As instituições responsáveis devem ter uma atenção especial, para que ao longo do tempo a gente possa ter uma fotografia cada vez mais detalhada de como é o sistema sócio-ecológico”.

O pesquisador do INPE ressaltou ainda que o último relatório do IPCC demonstrou que os efeitos das mudanças climáticas já são sentidas em todas as regiões do planeta e que um dos indícios disso é a maior frequência de desastres naturais como chuvas intensas, ondas de calor, períodos longos de seca, etc. “Já tem afetado de múltiplas maneiras, em especial, fenômenos relacionados a eventos extremos”, disse. “As mudanças que estamos vivenciando aumentam a cada fração de grau de aquecimento projetado para o futuro”.

Baía digital

Na sequência, Adriano Vasconcelos, do LAMCE UFRJ, fez a apresentação do Baía Digital — projeto que monitora a Baía de Guanabara seja em relação às condições climáticas e ambientais, como a sua composição urbana e social. O objetivo da iniciativa é produzir dados sobre a região, que possam servir para o desenvolvimento de modelagens e projeções dos impactos das mudanças climáticas. 

Adriano, assim como Lincoln, destacou a importância da produção de dados para que haja um maior controle das alterações ambientais e a identificação das vulnerabilidades que a população que vive no entorno da baía podem ficar expostas. “Uma aluna lá do laboratório fez um estudo dedicado à Baía da Guanabara sobre a elevação do nível do mar. Baseado no estudo, ela entendeu que faltam muitos dados para que tenha uma modelo dinâmico mais preciso”, narrou.

A ausência de informações, destacou o professor, também traz problemas em relação ao planejamento urbano. Segundo Adriano, dados como acesso ao saneamento básico e coleta de lixo ainda são muito precários, sendo levantados, muitas vezes, através da declaração de moradores. “Não quer dizer que o serviço seja perfeito, de repente em algum ponto o esgoto é jogado no rio sem que os moradores saibam”, exemplificou.

Modelo de sociedade deve ser repensado

Ricardo de Moura, doutor do IPPUR/UFRJ, destacou o trabalho que tem desenvolvido em parceria com o Fórum de Ciência e Cultura em que busca mapear as vulnerabilidades pelas quais os moradores são expostos. Ressaltou que a organização do espaço urbano no Brasil não é adequada e que as pessoas mais pobres acabam sendo as mais afetadas pelos fenômenos climáticos. 

Ele destacou como o mau planejamento urbano afeta a vida de pessoas que moram em regiões periféricas. Entre os exemplos, falou de Queimados, cidade da baixada fluminense que foi muito afetada pelas chuvas fortes de abril de 2022. “A gente teve a oportunidade de passar pelo rio Queimados, que passa pelo centro da cidade e adentra para alguns bairros do município, onde tem o rio Abel. Eles têm uma certa confluência e vão desaguar dentro do rio Guandu. Por vários quilômetros não é percebido nenhum tipo de tratamento sanitário”, disse Ricardo. 

Para o pesquisador, as mudanças climáticas e os seus impactos são provocados pelo modelo socioeconômico que atualmente vigora no mundo. “Sem dúvida, eu acho que a gente vive em um momento que a gente precisa repensar o nosso modelo de sociedade com urgência. Essa ação predatória do capitalismo absoluto com essa questão de produção de lixo em larga escala”, disse.

 

Assista à mesa de debates aqui.

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