CBAE 15 anos
Da esquerda para a direita: Nelson Barbosa, Ana Célia Castro, Elisa Pereira Reis e Stevens Rehen. 

No momento em que as ciências têm sido atacadas no país, pensar sobre seus desafios torna-se ação estratégica. Com essa proposta, o Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE) recebeu pesquisadores e a comunidade acadêmica para debater perspectivas de futuro. Realizado na última semana (12/09), o evento marcou o aniversário dos 15 anos do CBAE e o início das comemorações do centenário da UFRJ, que acontece em 2020. 

Fundado em 7 de setembro de 2004, o CBAE tem a função interdisciplinar de integrar diferentes áreas do conhecimento. Desde então, o órgão vem promovendo debates relevantes que impactam não apenas a academia, mas a sociedade em geral. A perspectiva para os próximos anos é dar prosseguimento a esta missão. Foi o que garantiu Ana Célia Castro, nova diretora do órgão. “O aniversário de 15 anos do CBAE é uma comemoração de continuidades”, celebrou. 

Segundo a diretora, o CBAE vai continuar sendo um espaço “para produzir questionamentos, se perguntar sobre os amanhãs desejáveis, sobre a universidade do futuro próximo e sobre as propostas para o Brasil em todos os campos do conhecimento de atuação. Nada mais oportuno do que iniciar esse novo ciclo com a discussão dos novos paradigmas”, disse a diretora.

Esse foi o tema da mesa composta pelos professores Nelson Barbosa (UnB, ex-ministro do Planejamento e da Fazenda e ex-docente do Instituto de Economia da UFRJ), que falou sobre o Novo Pacto Verde, Elisa Reis (PPGSA/UFRJ), que discutiu "Os desafios das ciências sociais em repensar o progresso" e Stevens Rehen (ICB/UFRJ), que tratou da necessidade de um cientista de se reinventar. Afinal, que papéis as ciências têm hoje? Como aproximá-las ainda mais da sociedade? Que paradigmas a universidade busca para o futuro? 

Nelson Barbosa: “Olhar para o meio ambiente não é questão de escolha”

O economista levantou a pauta do meio ambiente. Para ele, é inevitável que o Novo Pacto Verde entre na agenda para pensar os novos paradigmas, precisando ser entendido não como questão meramente ambiental, mas social e política muito importante. “Na economia, a gente ainda enfrenta os problemas do século XX como desigualdade, subdesenvolvimento, atraso tecnológico, só que agora temos os novos problemas do século XXI: envelhecimento e meio ambiente. Não dá para pensar economia e política sem pensar nisso. Olhar para o meio ambiente não é questão de escolha”. 

Segundo Barbosa, a economia verde se apresenta como uma das saídas possíveis para o quadro de emergência climática e crise econômica pelo qual passa o planeta, desafios que demandam um esforço unificado dos países. “O desenvolvimento verde tem que ser para todos, porque envolve inclusão social”. O ex-ministro do Planejamento e da Fazenda defendeu a necessidade da atuação dos governos na tentativa de reduzir o aumento da temperatura global. “Se nada for feito, em 2060 chegaremos ao limite de risco de aumento de 2ºC”, segundo apontam os relatórios recentes do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas).  

Entre os principais desafios, Barbosa mencionou a necessidade de investimentos dos governos em projetos de inclusão social, a mudança estrutural no padrão de produção e consumo e a utilização de novas matrizes energéticas. A nível nacional, o economista destacou que é preciso, além da recuperação de áreas desmatadas, desenvolver cidades sob bases mais sustentáveis e pensar na ampliação da produção e do uso de fontes energéticas renováveis, com a eólica e a solar. “Para isso, precisa de mobilização que junte a pauta ambiental com a pauta dos direitos civis, humanos trabalhistas e dos estudantes. Esse é nosso desafio como professores”, concluiu. 

Elisa Reis: “Passamos a pensar a sociedade como recurso organizacional”

Ao falar sobre o papel das ciências sociais, Elisa Reis explicou que hoje a própria sociedade é compreendida como recurso de mobilização, determinante para promover qualquer mudança estrutural. Segundo ela, tal percepção é tributária das reflexões propostas pelas ciências sociais. “Antes, a gente pensava que a sociedade tinha dois recursos básicos para se organizar: mercado e Estado. Esse dois recursos não dão conta de organizar a sociedade de modo compatível com as expectativas atuais. Então, passamos a pensar na própria sociedade como recurso organizacional”. 

Ainda que o engajamento social apareça hoje como peça chave, Elisa afirma ser preciso mudar a visão, ainda comum, de humanidade e natureza como questões separadas. Nesse sentido, a pesquisadora destaca a importância da colaboração entre as ciências sociais e naturais em busca de soluções e diretrizes para problemas da atualidade, em especial a questão da desigualdade, que classificou como “o maior perigo que o mundo enfrenta no momento”. 

Para Elisa, o desafio dos cientistas é promover um conhecimento engajado, mas não como ativismo irrefletido. O objetivo deve ser “tornar os avanços da ciências sociais mais acessíveis e relevantes” e, assim, oferecer aos atores sociais ideias sobre possíveis futuros.“O entendimento cultural das coisas é que torna possível convencer as populações”.  

Stevens Rehen: “Precisamos desmistificar a crença difundida pelo senso comum de que os cientistas só falam entre si”. 

Com uma trajetória marcada pela divulgação científica, Stevens Rehen sinalizou a importância de “comunicar a ciência”. “A visibilidade da UFRJ existe e pode ser melhor utilizada”. Na sua visão, é por aí que a classe científica deve caminhar, procurando pensar em ferramentas e estratégias de comunicação que dêem maior visibilidade às pesquisas e produções da universidade. “A gente tem que trabalhar essa novas mídias. O conteúdo a gente já tem. Já temos um selo de credibilidade. A UFRJ tem uma marca muito forte. A gente só precisa trabalhar para que isso chegue onde as pessoas estão consumindo conteúdo”.

Especialista em reprogramação celular e nos estudos de células tronco, Rehen citou a necessidade de aproximação dos cientistas com projetos de comunicação, envolvendo tanto os grandes veículos de mídia - como canais de TV aberta -, quanto plataformas de publicação e consumo de conteúdo online, como o YouTube. “Precisamos desmistificar a crença difundida pelo senso comum de que os cientistas só falam entre si”, afirmou. 

Para o pesquisador, que esteve diretamente envolvido nos estudos que relacionaram o Zyka Vírus ao aumento nos casos de microcefalia, o desafio é aprender a dialogar com diferentes grupos e atores sociais, como líderes religiosos e a classe política. Steven contou algumas de suas experiências, entre elas a ocasião em que participou de um programa na TV aberta para debater sobre células tronco com um padre e de uma entrevista dando parecer científico sobre a legalização da maconha. “A gente precisa colocar mais os formadores de opinião da UFRJ dentro dos veículos de comunicação para que a gente possa ter isso como selo de qualidade, diferenciando o que é uma pseudociência de uma ciência de verdade”, concluiu.


Reportagem: Victor Terra 
Fotografia: Eneraldo Carneiro 

UFRJ Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ
Desenvolvido por: TIC/UFRJ