Kellner entrevista 3 

Na próxima segunda-feira, 2 de setembro, o incêndio que atingiu o Museu Nacional completa um ano. Apesar dos danos causados pelo fogo – alguns irreparáveis, o “Museu Nacional Vive”. As três palavras formam o slogan da campanha de recuperação e resgate do prédio e do acervo. Avanços já podem ser percebidos, mas ainda há muito trabalho a fazer. “Não sou por natureza pessimista ou otimista. Sou realista”, explica o professor Alexander Kellner, que assumiu a direção do Museu Nacional em fevereiro de 2018, apenas sete meses antes do incêndio destruir o prédio e grande parte do acervo do Museu, instalado no Palácio que serviu de residência para a família imperial, na Quinta da Boa Vista. 

Um ano depois da destruição, Kellner está confiante com o ritmo de trabalho na recuperação do Museu Nacional – que depende de uma articulação nacional e internacional, doações de pessoas físicas, instituições privadas e, claro, do Governo Brasileiro. “Precisamos de ajuda de vários atores: do Ministério da Educação, porque sem o MEC nós não vamos ter um novo Museu Nacional; da UFRJ, a qual nos pertencemos, que está imbuída da responsabilidade da reconstrução do Museu; de várias instituições brasileiras que já estão nos ajudando com doações de material; do IBRAM – Instituto Brasileiro de Museus, um parceiro muito grande que nos ajuda em vários aspectos; do IPHAN, porque o prédio é tombado – e mesmo que o interior agora tenha uma situação diferente, mas a fachada continua sendo de um prédio tombado. Nós esperamos que esses atores todos se unam, juntamente com colegas de instituições internacionais, e que a gente reabra pelo menos a primeira sala em 2022, ano da Independência do nosso país”. 

Nesta entrevista, o Diretor do Museu Nacional explica também a mudança pela qual o Museu Nacional passará, dentro do organograma da UFRJ: deixará de ser vinculado ao Fórum de Ciência e Cultura e passará a responder diretamente à Reitoria. “Estamos iniciando os nossos estudos e tem toda uma parte legal para ser feita. Mas o mais importante é que o Fórum de Ciência e Cultura compreende e concorda com essa mudança, e nos apoia integralmente”. 

Assista à entrevista completa:

O Museu Nacional é um dos órgãos que faz parte do Fórum de Ciência e Cultura, mas essa estrutura está prestes a mudar. Gostaria que falasse um pouco sobre a motivação e o significado dessa mudança.   

Desde que assumimos, em fevereiro do ano passado, antes da grande tragédia que aconteceu com a gente [o incêndio que destruiu o Museu Nacional em 2 de setembro de 2018], sempre tivemos a noção de seria muito importante que o Museu Nacional saísse da situação em que está, vinculado ao Fórum de Ciência e Cultura, e ficasse mais próximo da reitoria. Por vários motivos: o Museu Nacional é uma instituição acadêmica. Temos 6 cursos de pós-graduação, coleções enormes – mesmo depois da tragédia, temos coleções com milhões de exemplares – e, dentro da estrutura acadêmica da UFRJ, estávamos um pouco invisíveis. E isso se refletiu na falta de investimento. O Fórum de Ciência e Cultura, da maneira como estava constituído, tinha outras prioridades. O Museu nunca conseguiu chegar a ser destacado pelo Fórum. Há algumas décadas sempre havia esse desejo de uma mudança dentro do organograma da UFRJ. E nós assumimos com esse compromisso de conversar com a reitoria sobre esse assunto. Felizmente, tivemos bastante sucesso tanto com a reitoria passada, do Roberto Leher, como pela atual gestora, a professora Denise Pires, que está nos auxiliando a fazer essa mudança, deixando claro que é uma mudança em harmonia.  

Quando isso vai acontecer? 

Se dependesse da gente, ontem. Mas estamos iniciando os nossos estudos e tem toda uma parte legal para ser feita. Mas o mais importante é que o Fórum compreende e concorda com essa mudança, e nos apoia integralmente. 

Qual é o cenário atual do Museu Nacional? 

Parece um pouco contraditório, mas as coisas estão indo bem, diante da tragédia que nós sofremos. Quando você passa por uma situação dessas, o ponto mais importante é fazer e desenvolver projetos. E isso está acontecendo. Ainda no governo Temer foram prometidos ao Museu Nacional R$ 16 milhões, dos quais R$ 10 milhões foram destinados via UFRJ para o escoramento do palácio e confecção do telhado provisório para que a gente pudesse dar continuidade à atividade de resgatar material que ainda se encontra nos escombros. R$ 1 milhão foi destinado para fazer o projeto executivo da reconstrução da fachada e dos telhados. E R$ 5 milhões o Governo Temer deu diretamente a Unesco para desenvolver dois projetos: o primeiro, executivo, da parte interna do Museu, ou seja, como a parte de infraestrutura vai ser reconstruída; e o segundo, um anteprojeto das novas exposições, que é o que vai ditar o que vai acontecer dentro do palácio. Nós estamos muito animados com isso, que está andando bem. E nós, dentro dessa situação, estamos atuando junto com o governo atual para que a gente consiga sanar isso o quanto antes. Isso passa pela concessão de um terreno, que já está prometido, onde vamos poder adaptar módulos e nossos laboratórios. A melhor notícia é que recebemos da bancada federal do Rio de Janeiro, que conseguiu liberar R$ 43 milhões, dos R$ 55 milhões prometidos ao Museu Nacional para as obras de reconstrução da instituição como um todo. E isso é uma notícia excelente. Qual nosso principal problema? O nosso dia-a-dia. E ainda estamos sofrendo muito: não temos sala para todos os professores, não temos locais adequados para dar aulas, os laboratórios perderam uma enorme quantidade de instrumentos. A gente precisa trabalhar e é por isso que a gente faz sempre um apelo às pessoas que façam, dentro das possibilidades, a divulgação dos nossos eventos, entrem no site da associação amigos do Museu Nacional, façam suas doações, no que for possível, porque é essa doação que torna possível fazer pequenos reparos no local onde nós estamos.  

Como tem sido a solidariedade ao Museu Nacional por parte da sociedade? 

É muito grande. As pessoas entendem esse momento delicado pelo qual o Museu passa e procuram ajudar. Nós estamos viabilizando diferentes formas para que as pessoas possam ajudar. Estamos aceitando doações não apenas de recursos financeiros, mas também de material de acervo, que será um dos grandes problemas que nós teremos: a recomposição do acervo do Museu Nacional. Mas nós temos tido uma participação muito bacana da sociedade como um todo e estamos esperando devolver o Museu Nacional o quanto antes. 

E como tem sido a participação da comunidade internacional? 

A comunidade internacional ficou chocada e, temos que ser bem francos, decepcionada com país de ter deixado seu bem cultural e científico maior em estado de abandono. O Museu Nacional tem tido problemas com questões estruturais há bastante tempo. Em 2013, chegamos a ter uma verba parlamentar de R$ 20 milhões aprovada, que em 2014 foi contingenciada e teria evitado essa tragédia. A comunidade internacional inclusive cobra do governo brasileiro essa situação do Museu Nacional. Por outro lado, nós temos agora posto diante da gente, uma grande oportunidade, não apenas de repensar mas de reconstruir o Museu Nacional, com segurança, com acervo, de forma que seja um dos melhores do mundo. Por isso precisamos de ajuda de vários atores: Ministério da Educação, UFRJ, várias instituições brasileiras que já estão nos ajudando com doações de material, também o IBRAM – Instituto Brasileiro de Museu, parceiro muito grande que nos ajuda em vários aspectos, o IPHAN... Nós esperamos que esses atores todos se unam, juntamente com colegas de instituições internacionais e que a gente reabra pelo menos a primeira sala em 2022, ano da Independência do nosso país.  

Está otimista? 

Não sou por natureza pessimista ou otimista. Sou realista. Quando passamos por essa tragédia, eu só estava há 6 ou 7 meses na direção do Museu - então você pode imaginar o peso que isso traz para um gestor. Quando entrei no Palácio, depois do incêndio, pelo que vi, saí acreditando que a gente ia recuperar muito material. E aconteceu. Da mesma forma posso dizer isso: com a ajuda da sociedade, vamos reconstruir o Museu Nacional moderno, com característica da nossa alma, que é um museu de história natural, com antropologia e essa vertente histórica que nós temos.  

[Por Dentro do FCC] é uma série semanal de entrevistas que apresenta o Fórum e seus órgãos suplementares à comunidade universitária e à sociedade. Nelas, os participantes discutem os projetos e as expectativas de cada órgão para os próximo quatro anos de gestão. 

Confira as edições anteriores da série: 

[Por Dentro do FCC] #1 Fórum de Ciência e Cultura, com Tatiana Roque 

[Por Dentro do FCC] #2 Superintendência de Difusão Cultural, com Adriana Schneider

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